Diferentes temas com repercussão na ética médica foram vistos durante o I Conem

Por em março 20, 2017

Dilemas enfrentados pelos médicos, impactos da tecnologia na relação médico-paciente e a terminalidade da vida foram alguns dos temas debatidos durante a I Conferência Nacional de Ética Médica (Conem), promovida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em 15 de março, em Brasília (DF). O encontro é uma das etapas do processo de revisão do Código de Ética Médica e precedeu a realização do I Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina (ENCM) do ano de 2017, no dia 16.

No início dos trabalhos, o presidente do CFM, Carlos Vital, explanou sobre o trabalho da Comissão Nacional de Revisão do Código de Ética Médica. Desde o ano passado, foram realizadas 13 reuniões e três encontros regionais. Até o momento, já foram apresentadas 1.189 propostas de mudanças no Código de Ética Médica. Além da Conferência realizada nesta quarta-feira (15), está prevista outra para novembro. Em 2018 será realizada o encontro que aprovará o texto final.

“Tanto na revisão do Código realizada em 2009, como desta vez, mantivemo-nos fiéis às diretrizes norteadoras estabelecidas em 1988, baseadas na dignidade humana e na medicina como a arte do cuidar”, ressaltou o presidente do CFM, ao destacar a forma de condução do trabalho.

Como forma de ampliar a participação no processo de revisão do Código de Ética, o CFM criou o site www.rcem.cfm.org.br, que pode ser usado pelos médicos ou por entidades cadastradas para apresentar sugestões. O prazo final para envio de propostas é 31 de março (sexta-feira). A expectativa é que o novo Código de Ética seja aprovado em abril do próximo ano, entrando em vigor no segundo semestre.

A mesa de abertura do I Conem também contou com a participação do presidente do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF), Jairo Martinez Zapata, que ressaltou a importância de se discutir a ética médica em um momento no qual a saúde pública sofre com a escassez de recursos.

Diálogo – A I Conferência teve como um dos seus destaques palestra do padre Aníbal Gil Lopes, professor aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro e docente da Unicastelo. Aníbal Lopes ressaltou que a medicina deve se basear na busca da felicidade do paciente. “A nossa postura deve ser sempre o bem daquele que está sendo assistido”, defendeu.

O conferencista alertou que nenhum código abarcará todas as situações, mas deve reforçar a necessidade do diálogo entre o médico e o paciente. “Temos de estabelecer pontes e usarmos a tolerância na medida correta. É preciso saber ouvir o paciente, pois princípios que são caros para nós podem não ser para outras culturas”.

Tecnologia – Além do padre Aníbal Lopes, também chamou a atenção dos participantes a exposição feito pelo professor do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, Carlos Costa Gomes. Na oportunidade, ele falou sobre o pós-humanismo.

De acordo com o palestrante lusitano, o homem está cada vez mais conectado e informatizado, o que faz necessário um olhar mais atento para a formação médica. “A tecnologia já está impregnada na sociedade. O médico vive hoje numa selva informatizada, mas deve ter sempre uma atitude humanista e humanizada”, observou.

A ética no mundo contemporâneo também foi abordada pelo palestrante. Para ele, a vida passa por uma constante avaliação. “Há um mural de incertezas onde tudo é relativo. A ética agora, contrariamente, é baseada nas decisões individuais. O homem desde sua origem conseguiu se adaptar e distinguir o que era bom do mal. O futuro nos reserva o homem informatizado, mas vejo esse homem do futuro com esperança”, concluiu Gomes.

Terminalidade da vida – As percepções sobre o fim de vida e o impacto das tecnologias de comunicação na prática médica também foram temas abordados durante a I Conferência Nacional de Ética Médica (Conem), realizada no dia 15 de março pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o ginecologista e obstetra José Humberto Belmino Chaves, abordou a terminalidade da vida como um desafio para o exercício da medicina, em especial no atendimento ao paciente idoso.

De acordo com ele, o Brasil passa por uma fase de transição epidemiológica. Os dados apresentados sublinham a tendência de envelhecimento da população e o aumento das demandas por serviços de saúde para tratar doenças características dos mais idosos, como transtornos cardiovasculares, neoplasias, diabetes mellitus e problemas respiratórios crônicos.

“O Estado deve estar preparado para prover políticas públicas que assegurem uma atenção integral”, disse. A palestra do professor abordou ainda diversos aspectos que dialogam com a temática do envelhecimento. Ele também tratou sobre a relação entre a medicina e a morte e conceitos como distanásia, ortotanásia, cuidados paliativos, ordem de não reanimar e diretivas antecipadas da vontade ou testamento vital, dentre outros temas.

Outro destaque na programação do I Conem, foram as participações dos médicos Fernando Todt Carbonieri e José Eduardo de Siqueira, que falaram sobre novas tecnologias. Ambos analisaram o impacto da inserção das ferramentas técnico-científicas na prática médica ao longo das gerações.

Carbonieri, que é pesquisador sobre a relação médico-paciente, ressaltou que, hoje, a presença da tecnologia é uma realidade. Ele apresentou dados de trabalho conduzido por ele pelo qual 38,3% dos médicos relataram disponibilizar o whatsapp para contato com os pacientes e 58% informaram usar esse aplicativo para sanar dúvidas com colegas.

Os dados mostram, ainda, que 37% dos médicos declaram que o tempo de consulta aumenta em até 25% quando o paciente já chega com informações prévias sobre sintomas ou doenças. Na sua avaliação, esse cenário exige a criação de um “melhor ambiente para que as diferentes gerações não sejam simplesmente atropeladas pela inovação”.

Por sua vez, o professor José Eduardo de Siqueira, que é cardiologista e leciona na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), reforçou que o avanço da ciência não suprimirá a figura do médico. Para ele, as pessoas devem ser educadas a buscar fontes confiáveis de pesquisa na internet, como os sites das sociedades de especialidade.

O professor da PUC-PR ressaltou também que os médicos devem aprimorar a forma de comunicação com seus pacientes, considerando valores e contextos psicossociais, o poder decisório e a responsabilidade. “A inteligência intrapessoal (aprender a ser) precisa ser desenvolvida para atender o outro (inteligência interpessoal), aprender a viver junto”, ressaltou.

*Informações do CFM

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *