II Fórum sobre Segurança do Paciente debate diferença entre erro médico e de assistência

Por em Fevereiro 12, 2019

Os desafios para a implementação dos Núcleos de Segurança do Paciente (NSP) e a diferença entre erro médico e erro de assistência foram debatidos na manhã desta sexta-feira (8), durante o II Fórum de Segurança do Paciente, promovido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em Brasília. “Sempre teremos eventos adversos no atendimento em saúde, mas justamente por trabalharmos em um ambiente imprevisível, temos de atuar com todo o cuidado e dentro dos protocolos”, afirmou o coordenador da Câmara Técnica de Segurança do Paciente e conselheiro federal, Jorge Curi.

Na abertura do evento, o presidente do CFM, Carlos Vital, afirmou que os debates realizados no Fórum irão subsidiar o plenário do CFM nas discussões sobre o tema. “A segurança do paciente é fundamental e envolve vários atores. Devemos dar nossa contribuição para que os erros sejam reduzidos ao mínimo possível”, disse. A primeira mesa redonda debateu a diferença entre erro médico e erro de assistência em saúde. “Temos de desmistificar o que a mídia aponta como erro médico. Errar é humano e como humanos, os médicos continuarão errando, mas, na maioria dos casos, o que há são erros assistenciais”, argumentou o presidente da mesa, João de Lucena Gonçalves, que é membro da Câmara Técnica de Segurança do Paciente.

“Infelizmente os eventos adversos acontecem. O nosso desafio é estabelecer barreiras para que não ocorram”, explicou o primeiro palestrante da mesa, Jorge Curi. Entre os incidentes mais comuns, estão as infecções, úlceras por pressão, quedas, problemas no transporte e erros de diagnóstico. Depois de apontar os fatores contribuintes, como os processos organizacionais, Curi argumentou que não cabe encontrar culpados, “mas melhorar o atendimento”. Entre as ações sugeridas, estão a criação de Núcleos de Segurança dos Pacientes (NSP) nos hospitais, sensibilização dos médicos e mais notificações dos incidentes. Veja a apresentação aqui.

Erro de assistência – Na palestra seguinte, o desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) Diaulas Ribeiro, fez uma diferenciação entre erro médico e erro na assistência. “Tudo que não dá certo na área da medicina é colocado na conta do médico, mas há uma diferença grande entre o erro do médico, o de assistência e o de outros profissionais de saúde”, argumentou. O desembargador contou um caso, ocorrido em um hospital público do DF, em que, por oscilação na energia da rede elétrica, os equipamentos da UTI deixaram de funcionar corretamente. “O que inicialmente foi apontado como erro médico, descobriu-se que foi do setor de engenharia, que não fez a manutenção correta do sistema elétrico”, relatou.

Diaulas também defendeu mudanças no Código de Defesa do Consumidor (CDC). “Ela tem uma visão paternalista, como se o consumidor fosse sempre uma vítima desinformada. O que nem sempre ocorre, principalmente após o avanço da internet”, argumentou. Defendeu, ainda, que a relação médico-paciente não deva ser julgada apenas pela ótica do CDC. “A medicina é muito maior do que uma relação de consumo”, disse. Veja a apresentação aqui.

Núcleos de segurança do paciente – A experiência no hospital paulista Mário Covas da implementação dos protocolos de segurança do paciente foram apresentadas pelo superintendente da instituição, Desiré Callegari, que foi um dos debatedores da mesa “A integração dos Núcleos de Segurança do Paciente com os setores e comissões hospitalares”. Callegari explicou que a adesão é um processo. “Não esperem que da noite para o dia haja um engajamento de todos neste processo. Temos de começar por quem tem aderência maior, com o tempo o médico percebe que tem deve participar do NSP”, contou.

Segundo Desiré, quando hoje ocorre um evento adverso no Mário Covas, a notificação é imediata, “pois os profissionais de saúde sabem que não sofrerão um processo administrativo. A notificação servirá para que novos erros não ocorram”, afirmou. Nas estratégias para reduzir os efeitos adversos, o administrador hospitalar ressaltou a necessidade da adesão dos familiares do paciente e mostrou um vídeo com a esposa de um paciente internado, em que ela explicava o que não deveria ser feito para evitar acidentes, como manter a grade da cama sempre levantada. A apresentação pode ser acessada aqui.

Erros – Para o diretor técnico da Casa de Saúde São José (RJ), Augusto Neno, que apresentou a implementação do NSP no hospital, a cultura de segurança do paciente ainda é fraca. Um exemplo foi uma pesquisa realizada em 2017 com estabelecimentos de saúde cariocas. “Dos 3.600 estabelecimentos elegíveis para ter um Núcleo de Segurança, apenas 346 tinham um NSP instalado e apenas 109 fizeram alguma notificação de erro adverso. Quando não notificamos nossos erros, perdemos a oportunidade de aprender com eles”, argumentou. Acesse aqui  a apresentação.

O presidente da Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp), Victor Grabois, argumentou que o envolvimento da equipe hospitalar é essencial para a melhoria da segurança. Pesquisa realizada em grandes hospitais americanos mostrou que quanto maior a fidelização de servidores, o que é possível com condições de trabalho atrativas, menores os índices de eventos adversos. “É preciso o engajamento dos funcionários e, principalmente, das lideranças”, defendeu Grabois. O presidente também apresentou os fatores que contribuem para a ocorrência de incidentes, as principais tarefas do NSP e o que deve ser feito para melhorar o engajamento médico. Leia aqui a apresentação.

O superintendente médico do hospital alemão Oswaldo Cruz (RJ), Antônio da Silva Bastos Neto, mostrou o que a unidade hospitalar está fazendo para melhorar a segurança do paciente. “Em 2014 implantamos o NSP e recentemente mudamos a área de qualidade e segurança da área assistencial para a médica”, contou. Para o fortalecimento do NSP, Antônio Bastos defendeu o exercício da liderança, o fortalecimento da cultura de notificação, o gerenciamento de riscos com ferramentas eficazes e a transparência. “O Núcleo não é para julgar médicos, é para investigar os erros para evitá-los no futuro”, ressaltou. A apresentação pode ser acessada aqui.

(Informações do CFM)

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