CFM cria Comissão Ética e Médica para anestesiologista dependente químico

Por em outubro 1, 2013

Durante o “I Simpósito Internacional de Saúde Ocupacional dos Anestesiologistas”, foi anunciado a formação de uma “Comissão Nacional para Assistência Ética e Médica do paciente médico-anestesiologista com dependência química” , formada por representantes das Câmaras Ténicas de Anestesiologia e Psiquiatria pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e com apoio da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA). Esta Comissão irá desenvolver um projeto de apoio a médicos anestesistas que tenham problemas de dependência química e queiram se tratar.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) já oferece este serviço, só que para médicos de todas as especialidades. “Vamos começar nacionalmente com foco nos médicos anestesiologistas como um projeto piloto, pois é a especialidade que concentra proporcionalmente o maior número de médicos com dependência, para depois estendermos esta assistência a todos os médicos brasileiros”, informou o 1º secretário e diretor de Comunicação do CFM, Desiré Callegari, durante Simpósio realizado em Brasília no dia 27 de agosto.

De acordo com o psiquiatra Hammer Palhares, um dos palestrantes do Simpósio, a dependência de drogas tem sido descrita como o principal problema relacionado à segurança e saúde dos anestesiologistas. Palhares, que é especialista no tratamento de dependência química, falou sobre o tema “Prevalência da má prática e a correlação com a saúde ocupacional do médico” e durante sua apresentação defendeu a importância de se olhar para os casos de dependência entre os anestesistas.

Outro palestrante, o anestesiologista e professor da Universidade Federal de Pelotas, Gastão Neto, informou que apesar de a especialidade representar 5% do total de médicos, os anestesistas são 15% entre àqueles que são dependentes químicos. Gastão foi o palestrante do tema “Uma visão política sobre a dependência química do médico anestesiologista: possíveis intervenções”, em que apresentou dados de pesquisas internacionais sobre a prevalência da dependência química entre os médicos e as possibilidades de recuperação.

Durante o Simpósio, foram debatidas as causas que levam à prevalência do problema entre os anestesistas e o que as entidades médicas podem fazer diante do problema. Entre as causas, estão o nível de estresse a que é submetida a especialidade, o conhecimento sobre os efeitos e a facilidade de acesso às drogas.

“Infelizmente, o conhecimento pode ser um complicador no tratamento da dependência química entre os anestesiologistas, pois eles sabem muito bem qual o efeito das drogas”, afirmou o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia para Políticas Públicas. Ele explicou como é o processo de tratamento da dependência química e como ele é aplicado entre os médicos que recebem o acompanhamento do Cremesp.

“Pela minha experiência clínica, é possível assegurar que a aderência ao tratamento entre os médicos é maior do que em outras categorias, pois nós não sabemos fazer outra coisa”, opinou. “Daí porque é importante que o CFM passe a apoiar quem sofre desse problema, pois quando é o próprio conselho de classe que faz o alerta, a adesão fica mais fácil”, defendeu.

Laranjeiras contou casos emblemáticos que foram ou estão sendo acompanhados pelo Cremesp. O deles é de um médico que perdeu tudo devido às drogas, tendo de passar um ano hospedado numa casa de passagem, que abriga pessoas de todas as classes sociais em processo de recuperação, porque não tinha dinheiro se manter. Este médico trocou a anestesiologia pela medicina da família, conseguiu voltar ao trabalho e já alugou um apartamento.

Outro caso foi de um médico preso pela polícia na cracolândia paulistana. “O delegado nos contatou e hoje fazemos um acompanhamento. Periodicamente ele tem de fazer os exames de urina e de cabelo. Conseguimos salvar um profissional e uma família”, avalia Laranjeiras.

No caso dos anestesiologistas, estudos mostram que dificilmente os médicos conseguem se curar da dependência caso se mantenham na especialidade. “Eu, particularmente, aconselho meus pacientes a procurarem outra especialidade, pois as facilidades são maiores se eles continuarem no mesmo ambiente”, defendeu Palhares.

Se o problema da dependência é aparentemente individual, a solução passa pelo coletivo. “Em São Paulo, o Cremesp já pediu o afastamento de um colega. Foi a forma que encontramos para proteger a ele e a sociedade”, contou Callegari. Além disso, o CFM pode pedir a interdição do profissional. O conselheiro do CFM entende, no entanto, que não basta prestar o apoio psicológico, é preciso um sustentáculo financeiro. “Temos de ter um fundo de apoio, ou um seguro, para esses profissionais, pois mudar de especialidade não é um processo fácil”, argumentou.

A última palestra do I Simpósio Internacional de Saúde Ocupacional do Anestesiologista, foi do procurador da República Diaulas Costa Ribeiro, que por muitos anos atuou no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios na Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde. De acordo com Diaulas, de 12% a 15% dos médicos do Distrito Federal têm problemas com dependência química ou alcóolica. “Há uma angústia profissional muito grande, com muitas cobranças e poucas condições de trabalho, o que pode está na raiz desse problema entre os médicos”, avaliou. Ele defendeu uma carga horária menor para os médicos, como uma forma de evitar a dependência. (Informações do CFM)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *