Em SP, médicos pedem fim da violência no trabalho

Por em março 15, 2017

Médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem fizeram uma passeata na manhã de hoje (15) em defesa da paz distribuindo rosas aos pacientes nas imediações do Complexo Hospital das Clínicas e promovendo revoada de balões brancos. A passeata fez parte da campanha do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) pelo fim da violência contra profissionais de saúde.

O Cremesp e o Coren-SP apresentaram uma pesquisa inédita sobre violência contra médicos e profissionais de enfermagem nas unidades de saúde. De acordo com o estudo, 59,7% dos médicos e 54,7% dos profissionais de enfermagem sofreram, mais de uma vez, situações de violência no trabalho. Os resultados foram anunciados durante o Encontro das Comissões de Ética de Medicina e de Enfermagem no Centro de Convenções Rebouças.

Após o encontro, médicos e profissionais de enfermagem seguiram em passeata para reforçar a campanha Violência Não Resolve, lançada nesta manhã, com o intuito de conscientizar sobre o problema, mostrando que respeito e harmonia, além de essenciais, contribuem para a melhoria da assistência.

A presidente do Coren-SP, Fabíola de Campos Braga Mattozinho, espera que a campanha sensibilize o público. “Muitas vezes o paciente está em situação de fragilidade, chega numa unidade de saúde e se depara com a falta de profissionais e medicamentos e isso, obviamente, gera uma insatisfação no paciente, que se volta contra a pessoa que está trabalhando, em sua maioria profissionais de enfermagem”.

Segundo Fabíola, a pesquisa vai ajudar a implantar medidas que possam minimizar essas situações. “[Com a pesquisa] damos voz a esses profissionais para que consigamos identificar as situações e assim criar um fluxo de melhor atendimento, além de implementar medidas para a redução dessa violência”.

Violência no trabalho atinge quase 60% dos médicos no estado de São Paulo

Pesquisa com trabalhadores da saúde no estado de São Paulo indica que 59,7% dos médicos e 54,7% dos profissionais de enfermagem sofreram, mais de uma vez, situações de violência no trabalho. Foram entrevistadas 5.658 pessoas nos meses de janeiro e fevereiro deste ano. O levantamento foi divulgado hoje (15) pelos conselhos regionais de Enfermagem (Coren) e de Medicina de São Paulo (Cremesp).

A maioria das pessoas agredidas (74,2%, dos médicos; e 64,9% dos profissionais de enfermagem) não apresentou denúncia. Entre os profissionais de enfermagem que registraram queixa, no entanto, 82,6% dos casos ficaram sem solução. Apenas 17,4% das ocorrências foram resolvidas. A pesquisa revela que 87,8% dos médicos não recebem orientações no local de trabalho sobre violências sofridas no exercício da profissão.

Para os médicos, o descrédito quanto à apuração do caso pelas autoridades foi o principal motivo (37,8%) para não levar adiante a denúncia. Entre os trabalhadores ligados ao Coren, 30,5% responderam que o fato de não existirem políticas de proteção às vítimas desencoraja o registro da denúncia. Dos que denunciaram, 83,1% o fizeram para a chefia imediata e 16,9% por meio de boletins de ocorrência.

Tipos de violência

A maior parte das ocorrências foi registrada no Sistema Único de Saúde (SUS). Entre os médicos, as unidades públicas somaram 59,1% dos casos. Em seguida estão os convênios, com 28,4%. Na área de enfermagem, 57,7% dos casos ocorrem no SUS e 26,3% na rede particular. Nesse item, o entrevistado poderia indicar mais de uma resposta. O tipo de violência mais frequente é a verbal, cerca de 50%. A psicológica foi citada por 38% dos médicos e 36,6% dos profissionais de enfermagem.

Quanto a quem praticou o ato violento, familiares e acompanhantes aparecem em 42,5% dos casos ligados aos médicos e 33,3% entre os profissionais de enfermagem. O percentual de pacientes que agiram de forma violenta é 38,9% em relação ao Cremesp e 33,2% em relação do Coren. Entre os profissionais de enfermagem, o percentual de violência praticada pela chefia imediata alcançou 20,2% dos casos. Entre os médicos, o percentual foi 11,7%.

Denúncias

O primeiro-secretário do Cremesp, Braúlio Luna Filho, espera que a campanha chegue a todos. “Precisamos que a população entenda que o mau atendimento, a longa espera, a falta de exame, um medicamento indisponível, não é culpa do médico e do enfermeiro, existe uma estrutura que impede isso”, pondera.

“Mas infelizmente tem uma minoria que se desespera, que chega num local que não o atende bem e parte para a agressão, geralmente é uma violência verbal, e às vezes chega a situações de agressão física”, completou.

O representante do Cremesp afirma ainda que o médico agredido, muitas vezes, não quer voltar a trabalhar naquele local e que os governos têm dificuldade de contratar médicos – problema que se multiplica quando há casos de violência.

“Nós queremos que a população entenda que o profissional de saúde é aliado dela, nós temos que lutar para ter mais recursos na saúde e melhores condições de atendimento da população, esse é o nosso intuito”, completou.

Ele lamenta ainda que a maior parte dos casos de violência não seja denunciada, já que os profissionais não acreditam que o problema possa ser resolvido. Além disso, ele defende a criação de uma delegacia especializada.

“Nós defendemos que a Secretaria de Saúde crie um mecanismo mais seguro, como uma delegacia especializada nesse tipo de assunto, talvez isso ajude os médicos a denunciar de maneira mais competente e quem sabe sensibilizar os órgãos públicos a tomar uma conduta para resolver esse problema que desestrutura o sistema de saúde”.

Apoio

O ajudante de serviços gerais Robson Farias que estava aguardando um atendimento no Hospital das Clínicas aprovou o ato. “É bom que a população veja como a gente passa dificuldades e eles [profissionais de saúde] também passam, ninguém pode agredir os enfermeiros e médicos”.

O pedreiro Josias Ferreira da Silva, que também estava no hospital, acredita que a conscientização é importante. “Deveria ter um jeito de acabar com essa violência, eles têm que cuidar bem dos pacientes, mas em quase todos os hospitais somos mal atendidos, a situação da saúde está difícil no Brasil”.

Para a enfermeira Simone Gomide dos Santos, a campanha é uma forma de sensibilizar tanto profissionais de saúde quanto os pacientes. “Muitas vezes não há macas, medicações e condições de trabalhar, enfim, não temos formas dignas de trabalho e isso também é uma violência contra o profissional, que gera um efeito dominó.”

Para ela, a falta de notificações de agressões sofridas pelos profissionais de saúde aumenta o problema. “Não temos números que reforçam a necessidade de criar uma política pública para termos maior segurança no trabalho, por isso essa ação é importante para as categorias.”

*Informações da Agência Brasil

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