Assédio Moral na formação médica traz consequências ao futuro profissional

Por em Maio 23, 2019

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) demonstra, de forma pública, preocupação em relação ao assédio moral ao médico jovem – e suas consequências ao futuro profissional e ao atendimento aos pacientes. Prova disso é o lançamento do livro Assédio Moral na Formação Médica: conscientizar para combater, realizado no dia 15 de maio, às 19h30, na sede da Casa – o primeiro produzido pela atual gestão.

Essa particularidade foi lembrada pela vice-presidente do Cremesp, Irene Abramovich, coordenadora da mesa oficial do evento, da qual participaram os organizadores da obra, Edoardo Filippo de Queiroz Vattimo, coordenador do departamento de Comunicação, e Elio Belfiore, delegado regional do conselho; Ângelo Vattimo, 1° secretário do Cremesp; Antônio Jorge Salomão, secretário-geral da Associação Médica Brasileira (AMB); e Rosana Leite de Melo, secretária-executiva da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM).

Cerco psicológico 
Conforme a definição de assédio moral da Organização Mundial da Saúde (OMS), “o cerco psicológico é uma forma de abuso do empregador que surge de comportamentos não éticos e conduz à vitimização do trabalhador”.

Antônio Jorge, representante da AMB, trouxe experiência pessoal envolvendo professores de Medicina, no início da década de 70. “Fui perseguido por catedráticos vitalícios”, lembrou. “Como um residente pode atuar bem, com um facão sobre a cabeça? Trabalho sob pressão interfere muito no atendimento ao paciente”. Nesse sentido, Rosana Leite informa que uma das queixas mais comuns nas Comissões de Residência Médica (Coremes) se refere à preceptoria. A chave para resolução dos conflitos, segundo ela, é a comunicação. “O professor tem que entender a posição do aluno e vice-versa”.

Uma das grandes barreiras a serem superadas no ambiente acadêmico é a repetição do erro em relação a colegas. Irene Abramovich, que além de conselheira é coordenadora da Residência Médica na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, lamentou que a violência seja perpetrada pelos próprios residentes – alguns com apenas um ano a mais de pós-graduação do que o assediado. “O ‘massacre’ é promovido pelo R+ contra o R -”

Em sua fala, Ângelo Vattimo reforçou a relevância do tema, mas enfatizou: “nem tudo é assédio, é preciso saber identificar”. A opinião vem ao encontro de um dos capítulos do livro, no qual as autoras Jellin Chuang e Jéssica Liu apontam o que não é assédio moral. Entre os exemplos figuram situações eventuais – é preciso repetição da conduta inadequada para o assédio ser caracterizado –, e simples exigências profissionais – já que cobranças e críticas, sem humilhação, podem surgir de objetivos construtivos.

Autores
Por fim, os organizadores de Assédio Moral na Formação Médica: conscientizar para combater falaram à plateia, da qual fizeram parte os demais autores, familiares e amigos.

Belfiore traçou um panorama da construção deste projeto de 2015 da antiga Câmara Técnica do Médico Jovem, do Cremesp, agora revisado e ampliado. “Já sofri assédio, gostaria de esquecer, mas discutir sobre o assunto em livro canaliza a experiência de uma forma boa. É um erro varrer o problema para baixo do tapete”.

Já Edoardo Vattimo pontuou os capítulos da publicação, como o que aborda a demografia médica e seus desdobramentos, entre os quais a feminilização e a discrepância entre os suicídios nesta categoria, em comparação às demais; o perfil dos assediadores; as bases histórico-sociais para a perpetuação do problema; e a contextualização em capítulos do Código de Ética Médica.

Em situações de assédio, explicou, pode haver um “componente de manipulação perversa, capaz de comprometer a autoimagem da vítima, fazendo com que se sinta culpada (…) considerar tal violência como ‘necessária’ para a formação médica é um equívoco”, em vista dos impactos que pode causar que incluem burnout, baixa autoestima e ideação suicida.

Confira a versão digitalizada da publicação aqui

(Informações do Cremesp)

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